Físicos brasileiros
que participam do projeto do Cern afirmam que descoberta histórica é só o
começo e não descartam possibilidade de novo modelo que explique a origem do
universo
Maria Fernanda Ziegler iG São Paulo | 04/07/2012
07:58:21 - Atualizada às 05/07/2012 11:38:51
Fabiola Gianotti, porta-voz do ATLAS, e Joe Incandela, porta-voz do CMS,
examinam os resultados de seus experimentos durante seminário no Cern. Foto: AP
Físicos afirmam que o anúncio desta quarta-feira (4) de que pesquisadores do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em inglês) observaram uma nova partícula subatômica com características semelhantes ao Bóson de Higgs marca a história da Física e promete ser o início de novas descobertas sobre a origem do universo.
A partícula
comprovaria o modelo teórico que explica por que algumas partículas têm massa e
outras não, uma etapa importante para entender a origem do Universo.
"Estamos agora entrando na era da medição de Higgs e isto é só o
começo,” disse Fabiola Gianotti, porta-voz da equipe ATLAS, um dos dois grupos
do Cern que buscam o bóson, durante a apresentação dos resultados hoje em
Genebra, na Suíça.
Pesquisadores que
madrugaram para acompanhar a apresentação do Cern em um evento na Unesp
(Universidade Estadual Paulista) na capital paulista afirmaram que esta seria a
maior descoberta na física de partículas dos últimos 45 anos, desde que o
modelo foi teorizado.
Sergio Novaes, que em 1982 publicou um trabalho sobre como seria
possível descobrir o Bóson de Higgs, estava emocionado. "Eu não tenho
muita dúvida de que em termo de física de partícula é o evento mais importante
dos últimos anos e espero que seja só o começo de novas descobertas",
disse o brasileiro, líder do SPRACE, projeto da Unesp que armazena e analisa
dados do CMS no Brasil, que está em uma conferência na Austrália pelo Cern. O
CMS é o outro grupo do Cern que analisa os dados do acelerador de partículas do
Cern, o Grande Colisor de Hádrons (na sigla em inglês, LHC).
"Também me admirou o anúncio do Cern, pois esperava que ele fosse ser mais cauteloso ao invés de seguir a tendência do Atlas e do CMS,” disse. Novaes afirma que com medições tão convincentes dos dois grupos, não há mais como recuar sobre a existência da nova partícula.
"Também me admirou o anúncio do Cern, pois esperava que ele fosse ser mais cauteloso ao invés de seguir a tendência do Atlas e do CMS,” disse. Novaes afirma que com medições tão convincentes dos dois grupos, não há mais como recuar sobre a existência da nova partícula.
AFP
Ilustração mostra
colisão de prótons medida pelo CMS na busca do bóson de Higgs
Comprovação
de teorias
Inicialmente, na teoria da física das partículas não existia o conceito de massa, porém se observava em laboratório que as partículas como os elétrons e prótons de um átomo tinham massa. Era, portanto, importante que se tivesse uma teoria que explicasse a geração de massas, como o mecanismo de Higgs.
Inicialmente, na teoria da física das partículas não existia o conceito de massa, porém se observava em laboratório que as partículas como os elétrons e prótons de um átomo tinham massa. Era, portanto, importante que se tivesse uma teoria que explicasse a geração de massas, como o mecanismo de Higgs.
Desde o começo da
formulação desta teoria, na década de 1960, novas partículas foram descobertas,
como os quark. A única partícula que faltava fechar este círculo de descobertas
era o Bóson de Higgs.
"Agora temos
evidências de que existe de um Bóson de Higgs. Ela é bem coerente com a teoria,
porém, para que se possa dizer que isto é realmente o Higgs será necessário
analisar todos os canais de decaimento e medir todos eles. Estas probabilidades
deverão ser explicadas por cálculos a partir do Modelo Padrão. Então este não é
o fim do caso. É um trabalho que ainda vai levar mais alguns anos" disse
Hélio Takai, físico do Brookhaven National Laboratory, nos Estrados Unidos.
O pesquisador
afirma que se a nova partícula for realmente o Bóson de Higgs, como parece ser,
a descoberta vai permitir a exploração de outras teorias e prever a existência
de outras partículas.
O LHC vai funcionar
até o fim de 2012 com oito TeV de energia usada para produzir as colisões de
prótons. Em 2013, ele ficará paralisado para manutenção e aumento de sua
potência e voltará a funcionar em 2014 com 14 TeV. Isto aumentará a precisão
das análises.
Pedro Mercadante, um dos integrantes
do Sprace (Centro de Análise de São Paulo, grupo experimental da Unesp que
integra o CMS), explica que o modelo padrão apresentado por Higgs não explica
uma série de questões, como a gravidade por exemplo, mas prevê a existência do
Bóson de Higgs até altas quantidades de energia, como o Big Bang, por exemplo.
"Este modelo não consegue explicar tudo. Ele não inclui uma série de questões como a gravidade, por exemplo. Por isso acreditamos, que os estudos do Cern podem criar novos modelos", disse. “A sensação do anúncio é de que estamos apenas no começo, pois ninguém garante que o modelo padrão proposto por Higgs seja verdadeiro, embora ele seja o mais bem sucedido em explicar a geração de massa”.
"Este modelo não consegue explicar tudo. Ele não inclui uma série de questões como a gravidade, por exemplo. Por isso acreditamos, que os estudos do Cern podem criar novos modelos", disse. “A sensação do anúncio é de que estamos apenas no começo, pois ninguém garante que o modelo padrão proposto por Higgs seja verdadeiro, embora ele seja o mais bem sucedido em explicar a geração de massa”.


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