Após aposentar seu
acelerador de partículas e ver a Europa descobrir a partícula de Deus, país
avalia as possibilidades para continuar na vanguarda da pesquisa científica
The New York Times | 17/03/2013 08:00:26
Será que os dias de
glória da física americana ficaram para trás?
Em uma manhã de
domingo no início de janeiro, cerca de duas dúzias de renomados físicos se
reuniram a portas fechadas no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech),
supostamente para falar sobre quem deve ser o próximo diretor do Laboratório
Nacional Acelerador Fermi, o Fermilab, principal laboratório de alta energia do
país. Eles, na verdade, acabaram por refletir sobre a situação atual de sua
profissão.
Os físicos americanos não estavam exatamente à margem em julho do ano
passado, quando a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, o Cern,
anunciou a provável descoberta do tão procurado Bóson de Higgs ,
a chave para compreender a origem da massa e da vida no universo.
Os Estados Unidos contribuíram com 531 milhões de dólares para construir
e equipar o Grande Colisor de Hádrons, a máquina europeia de bilhões de dólares
com a qual a descoberta foi feita. Cerca de 1.200 americanos trabalham no Cern,
incluindo Joe Incandela, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, que
liderou uma das duas equipes que fizeram o anúncio da descoberta
em julho .
Porém, à medida que
a ciência avança, os físicos de partículas americanos se perguntam qual o papel
eles exercerão – se é que exercerão algum papel – no futuro da física de alta
energia – a busca das partículas fundamentais e das forças da natureza – um
campo que outrora dominavam.
"Há um forte
sentimento de angústia no campo", disse Michael S. Turner, físico e
cosmólogo da Universidade de Chicago que participou da reunião na Caltech.
Depois de cancelar o Supercolisor Supercondutor, que teria sido a
máquina de física mais poderosa do mundo, em 1993, e de fechar o Tevatron do
Fermilab em 2011, os Estados Unidos já não possuem a ferramenta preferida pela
física – que atualmente é precisamente um colisor de partículas.
O maior projeto do
Fermilab daqui para frente é um plano para disparar um feixe de neutrinos,
partículas fantasmagóricas, por 1300 quilômetros terra adentro até um detector
na antiga mina de ouro Homestake, em Lead, Dakota do Sul, para investigar suas
propriedades de mudança de forma.
Os resultados podem
contribuir para solucionar problemas profundos e intratáveis da cosmologia, ou
seja, o motivo pelo qual o universo é feito de matéria e não de antimatéria,
mas não há dinheiro suficiente no orçamento do projeto para instalar o detector
abaixo do solo, na parte inferior da mina – onde ele ficaria abrigado dos raios
cósmicos e poderia monitorar neutrinos de explosões de supernovas distantes –,
e não na superfície.
Os americanos que
querem desfrutar das emoções de cruzar as fronteiras da física de alta energia
têm de voltar o olhar para o leste, focando no colisor do Cern, que deve
dominar o campo pelos próximos 20 anos. Outra opção é voltar o olhar para o
oeste, para o Japão, que está investindo cerca de 120 bilhões de dólares em
estímulos para ajudar na recuperação do desastre da usina nuclear de Fukushima
após o terremoto e tsunami ocorridos em 2011, e que quer usar parte do
orçamento para sediar a próxima grande máquina da física, o Colisor Linear
Internacional, que pode vir a ter 32 quilômetros de comprimento e fabricar
bósons de Higgs para pesquisas de precisão.
Em fevereiro, em
uma conferência de física realizada em Vancouver, na Colúmbia Britânica, a
equipe que trabalhou no projeto do colisor durante a última década transferiu
os planos para um novo consórcio, a Linear Collider Collaboration
("Colaboração do Colisor Linear"), dirigido por Lyn Evans, que
construiu o Grande Colisor de Hádrons do Cern. Evans disse que a construção do
colisor, próximo grande destaque de sua carreira, teria início dentro de dois
anos no Japão.
Quão
desesperadamente os Estados Unidos querem participar desses projetos, dos quais
podem vir os próximos grandes avanços na nossa compreensão do universo?
"Nosso
problema é que a Europa e Ásia consideraram a possibilidade ou já fizeram
investimentos de 10 bilhões de dólares na física de partículas", explicou
Jim Siegrist, diretor associado de física de alta energia da Secretaria de
Energia, que diz que um investimento de tanto dinheiro assim não está previsto
nos Estados Unidos. "O modo como concorremos é um problema para nós."
Os físicos esperam
ter algumas respostas até o meio deste ano, quando se reunirão novamente em
Minneapolis para a Snowmass, uma conferência de planejamento cujo nome é
inspirado no resort do Colorado onde ela costumava ser realizada até o local
começar a custar caro demais. Enquanto isso, restam apenas dúvidas, como, por
exemplo, qual será a relação do país com o Cern no futuro.
Os Estados Unidos
atuam hoje como observador no Cern, mas esse arranjo expira em 2017. Ingressar
como membro pleno custaria algo em torno de 250 milhões de dólares por ano e
está fora de questão. "Nem o Congresso nem as agências estão
interessados", disse Siegrist, que acredita ainda que nem o próprio Cern
estaria interessado em ter o Escritório de Prestação de Contas do Governo dos
EUA e outros "pegando no seu pé".
Por apenas 25
milhões de dólares, no entanto, os Estados Unidos poderiam se tornar um membro
associado, um caminho que agrada o diretor geral do Cern, Rolf-Dieter Heuer.
"Para mim,
isso seria um avanço", disse Heuer em uma entrevista recentemente. Ele,
porém, reconheceu que isso não viria sem percalços políticos e orçamentários do
lado americano.
"Sei que as
circunstâncias são delicadas", disse ele.
Por ora, disse
Siegrist, as autoridades americanas e o Cern devem discutir como os Estados
Unidos podem ajudar a aperfeiçoar consideravelmente o colisor planejado para
2022. Para isso, serão necessários novos ímãs supercondutores feitos de fios de
nióbio-estanho. "O Cern gostaria de se beneficiar da nossa
tecnologia", disse Siegrist.
Assim como no caso
do Colisor Linear, Siegrist disse que as autoridades japonesas e uma delegação
japonesa devem visitar os Estados Unidos ainda nesta primavera do hemisfério
norte para falar sobre esquemas de cooperação.
Siegrist disse que
o investimento americano no colisor do Cern havia estabelecido um precedente
para ajudar a apoiar os aceleradores de partículas no exterior. E mostrou que
os Estados Unidos podem ser um parceiro fiável em tais projetos. Em troca,
disse ele, o Fermilab pode ter ajuda externa para realizar o experimento de
neutrino, o suficiente para colocar o detector sob a terra, ou para propor uma
instalação, chamada Projeto X, para produzir feixes intensos de prótons. Não se
sabe qual será o resultado dessas iniciativas em tempos de sequestro de verba e
cortes federais, admitiu ele, mas a física de partículas produziu
desdobramentos importantes na medicina, incluindo dispositivos de imagem e
feixes para o tratamento do câncer, assim como na ciência dos materiais.
"Os
funcionários do Congresso com quem conversamos são muito simpáticos",
disse ele. "Esse tipo de ciência voltada a novas descobertas claramente
interessa ao governo."
No entanto, paira
sobre todo o campo a preocupação de que após o bóson de Higgs, possa não haver
nada mais a descobrir, pelo menos no que diz respeito aos níveis de energia
possíveis de serem alcançados com os aceleradores que podem ser construídos
atualmente. Talvez, dizem alguns físicos, o Fermilab deva ceder às pressões e
se concentrar no desenvolvimento de uma nova tecnologia que possa baratear os
aceleradores e diminuir seu tamanho.
Mesmo a proposta do
novo colisor linear é um dinossauro de acordo com esses parâmetros, disse
Turner, da Universidade de Chicago.
"O Japão está em boas condições
para construir o próximo grande dinossauro", disse ele. "Talvez todo
mundo esteja lutando para assumir o comando de um campo que já está
morto."

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